Numa entrevista concedida ao repórter Roberto Girafa, a cineasta Ana Carolina declarou, a respeito da religião, que “a religião existe para segurar a paixão. É a religião que pontua uma paixão e também forma um profundo mal-estar humano; quer dizer, a religião veste este mal-estar e a coisa fica mais inteligível. Tem isto que parece religião, mais é mais um mal-estar” (Ana Carolina, LTH Revista, Rio de Janeiro, 25/07/89).
Será que tudo isto é verdade? O que se entende por “religião” e “paixão”? Existe um conflito ou “oposição” entre a religião e a paixão? As palavras “religião” e “paixão” são ambíguas e sujeitas a várias interpretações. Vamos primeiro ver os diversos sentidos destas palavras e depois substituí-las na afirmação de Ana Carolina, para descobrir o que ela queria dizer, na verdade, sobre a religião.
Um primeiro sentido da palavra “religião” significa a graça libertadora de Jesus Cristo. Num segundo sentido, sociológico, a religião refere-se à moral convencional da classe burguesa. A “paixão” também, tem o sentido popular como amor inocente e espontâneo que nasce entre as pessoas; e, num segundo sentido vulgar, é usada para descrever um amor sensual presente nos relacionamentos sexuais. Agora, vamos reconstruir e reler o comentário de Ana Carolina nestes novos termos, usando o raciocínio lógico:
Interpretação I: “A religião (graça libertadora de Jesus Cristo) existe para segurar a paixão (amor inocente)”.
Esta afirmação é falsa. A graça libertadora de Jesus Cristo salva, purifica e eleva o amor humano a uma nova dignidade e beleza, e afirma todos os seus belos aspectos: o afeto, a ternura, o carinho, a atração, etc. A graça libertadora de Jesus Cristo não é contra o amor, mas sim a seu favor; protegendo-o e conservando-o contra suas falsas aparências.
Quando o amor respeita a pessoa e sua dignidade, enriquecendo-a e fazendo-a crescer como ser humano, é aceito e afirmado por Jesus Cristo e a Igreja.
Interpretação II: “A religião (graça libertadora de Jesus Cristo) existe para segurar a paixão (a sensualidade)”.
Isto é verdade. Não somente para segurar a sensualidade, mas até destruí-la. A graça libertadora de Jesus Cristo é para nos curar de tudo o que nos oprime e escraviza, inclusive daquele “velho homem” dentro de nós, que é a nossa sensualidade ou a vida “segundo a carne”, como diz São Paulo, e cujo fruto é a morte e a perdição. O que a Igreja e a religião condenam é aquilo que falsifica, ameaça ou acaba com o verdadeiro amor. Ela condena a exploração do ser humano pelo seu valor sexual, que o reduz a um objeto de uso.
Interpretação III: “A religião (moral convencional da classe burguesa) existe para segurar a paixão (amor inocente)”.
Isso acontece muitas vezes. A moral convencional da classe burguesa surgiu no século passado e é um sistema ridículo de proibições sem razões. É um sistema de normas morais baseado numa visão maniqueísta da vida, vendo o pecado em tudo: sexo, corpo, mulheres, amor, danças, etc. A própria classe rica que inventou esta moral nem sabe os motivos pelos quais condena tudo: é uma religião de medo: medo de que possa acontecer uma desordem na sociedade e acabar com esta moral convencional, absurda, sem sentido ou finalidade, que serve para garantir a segurança desta classe e o seu “bom comportamento”.
Eu acho que é neste sentido que Ana Carolina queria referir-se à religião. Esta moral da classe burguesa é bem apresentada nos seus filmes depressivos, onde é atacada e ridicularizada. A Ana Carolina acertou bem, comparando esta moral a um certo “mal-estar” (e eu acrescentaria: “um mal-estar até o ponto de vômito”).
Interpretação IV: “A religião (moral convencional da classe burguesa) existe para segurar a paixão (a sensualidade)”.
Sim, pelo menos ela tenta, mas não consegue. Somente a graça de Jesus consegue. Sistemas de uma moral capitalista ou humana não seguram os valores de um povo ou conseguem levá-los a uma finalidade sobrenatural e a classe burguesa não possui a força e nem os argumentos convincentes contra a imoralidade. Ana Carolina foi inteligente em perceber isso, razão pela qual falou que “a religião (moral convencional da classe burguesa) veste (com argumentos superficiais) este mal-estar (confusão criada por esta moral) e a coisa (sociedade burguesa) fica mais inteligível (segura, firme e tolerável)”.
Para concluir: qual é, então, a mensagem que Ana Carolina quer transmitir por meio de seus filmes? É uma revolta contra a moral burguesa? Ou é transmitir a sensualidade que ela gostaria de ver solta, sem nenhuma lei ou religião para segurar (como ela bem apresenta nos seus filmes pornográficos de libertinagem?). O que significa a liberdade para Ana Carolina? Se a liberdade representa um mundo hedonista de prazeres desenfreados, então, ela mesma provou, como cineasta, que o paraíso criado pela classe burguesa é, na verdade, um inferno. É a graça de Jesus Cristo que liberta o homem, não a carne. Esta, sendo material, limita o homem e se esgota em si mesma. É o espírito, por meio da graça, que acha seu espaço para o infinito, e se livra do sensualismo. Se Ana Carolina tivesse conhecido esta graça não teria ido procurar, desesperadamente, as respostas da felicidade na moral de uma classe social que nem sabe responder pela sua razão de ser.
Pe. Anthony Mellace
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